Por: Alberto Pirró Ruggiero
Consultor MOT
Para
falarmos sobre prevenção de conflitos, é importante começarmos por
entender o que é conflito e por que eles surgem. Uma das definições
mais elucidativas sobre o tema diz que conflito é "qualquer situação
onde exista uma oposição pessoal, interpessoal ou grupal sobre algum
interesse ou valor. Essas oposições surgem quando as pessoas contestam
idéias, atitudes e/ou comportamentos, se apegam aos seus pontos de
vista e lutam por eles, muitas vezes de forma irracional."
Sabemos que os conflitos se originam no processo de comunicação humana,
na maioria das vezes, inconscientemente. De forma geral, não temos a
intenção de gerar ou participar de uma situação conflituosa e
desgastante. Mesmo assim, freqüentemente nos damos conta de que já
estamos envolvidos em uma dessas situações, sem saber exatamente como
ela começou.
Para aprofundar um pouco mais este tema, precisamos entender melhor o
processo básico de comunicação, o qual surge da interação e da intenção
do emissor em transmitir uma mensagem ao(s) receptor (es), independente
do meio que se utiliza para tal. Parece simples, não é mesmo? Porém, o
que vemos acontecer, na prática, é uma grande dificuldade em se atingir
este objetivo.
Geralmente, não somos bem compreendidos porque não conseguimos
transmitir assertivamente aquilo que pretendemos. E para quem não sabe
muito bem o que é assertividade pela recente banalização deste termo,
vale lembrar que é ter a capacidade de expor - de maneira clara, madura
e não-agressiva - o que se pensa, sente ou quer. Mas como somos
"formatados" desde crianças para buscar aceitação social, acabamos
dizendo aquilo que o outro gostaria de ouvir, o que nem sempre
corresponde ao que gostaríamos de falar.
Olhando agora a questão sob outra perspectiva percebemos que, quando
falamos, tendemos a partir do pressuposto que o outro está recebendo
nossa mensagem da forma como a concebemos, ou seja, sem nenhuma
interpretação pessoal. No entanto, nossas palavras são captadas por
nosso interlocutor passando obrigatoriamente por seus filtros mentais,
que por sua vez são fruto de suas referências e experiências
anteriores, as quais decididamente não são semelhantes às nossas.
Pessoas distintas, mundos distintos... Quando nos expressamos estamos
colocando em palavras (além, é claro, da linguagem não verbal) nosso
mundo interno, composto por idéias, pensamentos, sentimentos,
sensações, intuições, valores e crenças pessoais. Em outras palavras,
nossa comunicação verbal e não-verbal é a representação do nosso mundo
interno interagindo com o mundo externo.
Neste processo é comum e involuntário que usemos omissões, pois
tentamos falar sobre uma experiência complexa e detalhada por meio de
uma descrição verbal limitada, que fatalmente suprimirá uma grande
parte da experiência em si.
Por outro lado, cada vez que ouvimos alguém, recorremos às nossas
próprias experiências pessoais para fazer uma representação interna do
que a outra pessoa fala para sermos capazes de compreendê-la. E isto
ocorre o tempo todo, com todas as pessoas, acrescido das famosas
generalizações e distorções que coroam o processo.
Bem, considerando somente estes fatores básicos de transmissão e
processamento de mensagens já conseguimos vislumbrar o quão complexo é
o processo de comunicação e como se torna fácil a geração de conflitos
decorrentes do mesmo.
Ah, então nos basta conhecer um pouco melhor este processo e interferir
conscientemente na qualidade de nossa fala para prevenirmos muitos
conflitos, certo? ERRADO! As empresas investem altas somas em
treinamentos de comunicação para seus colaboradores e os conflitos
continuam brotando incessantemente nos ambientes corporativos.
Olhando de uma perspectiva ainda mais ampla, devemos admitir que
conflitos são inevitáveis na vida em sociedade, de modo que tentar
eliminá-los é simplesmente uma utopia. Aliás, vale ressaltar que eles
não são necessariamente negativos. Em algumas situações promovem a
oportunidade de crescimento e coesão entre as pessoas, permitindo o
desenvolvimento de uma maior capacidade de compreensão, estímulo à
mudança, motivação para resolver problemas, transformação de valores e,
sobretudo, aprofundamento de relacionamentos. Mas tentar prevenir os
excessos de conflitos (que se tornam grandes desperdiçadores de tempo e
energia) e lidar com eles de forma inteligente é uma posição benéfica e
realista.
Como podemos prevenir esses excessos, então? O caminho mais curto rumo
a uma solução está em desenvolvermos a capacidade de sermos mais
assertivos e de estabelecermos um ambiente de confiança com as pessoas
com as quais convivemos, estimulando relacionamentos que abrem menos
brechas a situações ambíguas. E COMO FAZER ISSO? Desapegando-nos um
pouco de nosso "ego" e nos apaixonando menos por nossas próprias
idéias. Como pré-requisito a esta conquista, precisamos reavaliar como
anda nossa maturidade emocional e nosso auto-conceito.
Observem que, quando defendemos nossas posições com unhas e dentes,
muitas vezes de forma insana, uma série de significados implícitos,
subliminares, está presente, nos proporcionando emoções que suprem
fragilidades normalmente não percebidas ou, pelo menos, não admitidas
por nós mesmos. E, se não as admitimos, não as resolvemos, e repetimos
sempre o mesmo padrão de comportamento obtendo sempre os mesmos
resultados.
Como podemos ver, a prevenção de conflitos começa na motivação pessoal
de fazer uma auto-análise, por meio de um questionamento sincero sobre
nossa capacidade de ouvir o outro verdadeira e completamente, sem
precisar interrompê-lo ou contestá-lo antes mesmo que sua frase esteja
terminada. Ou, ainda, observando como anda nossa capacidade de aceitar
que os outros têm todo o direito de discordar de nossas idéias e pontos
de vista, sem com isso nos sentirmos rejeitados, diminuídos ou
incompreendidos.
Outro ponto importante na prevenção de conflitos é a real aceitação das
inevitáveis diferenças que existem entre as mais diversas
personalidades que povoam nossos ambientes sociais e a compreensão de
que não existem verdade nem razão absoluta, somente verdades e razões
pessoais, relativas, desenvolvidas a partir de um ponto de vista
individual e único.
Sendo assim, podemos perceber que no ambiente corporativo existem
técnicas e teorias sobre este tema, que visam a minimizar as perdas de
negócios geradas por conflitos declarados ou "mascarados" no ambiente
de trabalho, que minam a lucratividade das empresas, a qualidade dos
relacionamentos e o clima organizacional. No entanto, para que tais
técnicas sejam bem utilizadas e alcancem seus objetivos adequadamente,
precisamos estimular as pessoas a se abrirem a um processo reflexivo de
auto-desenvolvimento, visando elevar a cada dia sua maturidade
emocional, a qual alicerça nossas ações e comportamentos. Este foi, é e
continuará sendo o grande desafio a ser enfrentado por quem busca
prevenir conflitos em quaisquer ambientes sociais.