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Nem Sempre O Certo É O Certo... Publicado em 20/7/2009 às 13:28:10
Escrito por VICTOR MIRSHAWKA JUNIOR

Dirigindo dia desses de manhã, parei num cruzamento entre duas ruas movimentadas, e enquanto aguardava no sinal vermelho, pude seguir com o olhar, durante penosos vinte segundos, uma senhora de idade, de origem asiática, atravessando a rua com duas sacolas de compras de supermercado.

A coitada andava arqueada para frente, e quando se movia, pendia o corpo para cada lado, numa clara indicação de dificuldade e de dor para realizar o movimento. Torci para que ela conseguisse cruzar a rua antes do farol abrir.

No exato instante em que ela chegou à calçada do outro lado, e ao mesmo tempo em que a luz verde surgiu, ela parou, colocou as sacolas no chão, e mesmo que estivesse de costas para mim nesta posição, eu podia ver, ou talvez sentir, sua expressão de cansaço. Acho que devo ter ficado muito tempo ali pensando e olhando, pois o motorista do carro de trás quase desceu, depois de muito buzinar, para me fazer acelerar meu carro em frente.

Em poucos segundos, tomei a decisão que achei mais humana. Dei a volta no quarteirão e encostei ao lado daquela senhora, perguntando se ela queria ajuda. Isto não foi difícil porque ela estava em frente a um posto de gasolina, portanto havia bastante espaço livre para meu carro. Além disso, eu estava disposto a desviar um pouco do meu percurso (porque não estava atrasado) e quem sabe levá-la até sua casa, já que ninguém na redondeza se dignou a fazer qualquer menção de auxílio, e havia muitos pedestres ali, pois estávamos ao lado de uma estação de metrô.

O que se seguiu me surpreendeu, e muito, mas negativamente. Ela me escutou, olhou profundamente em meus olhos, e sem dizer uma só palavra, cuspiu no chão e continuou andando. Eu fiquei absolutamente sem reação, me achando um completo idiota, e achando aquela senhora mais idiota ainda, pois não gostaria de citar as palavras que pensei.

Por mais alguns instantes, olhei para aquele caminhar vagaroso, dolorido, mas firme, num misto de resignação com coragem, mas não consegui entender aquela atitude tão grosseira.

Acho que o frentista atrás de mim já tinha o discurso pronto para estas horas. Esperou que eu virasse o rosto, pois pelo jeito outros já o fizeram, e soltou:

- Não se preocupa, não, dotô. Você é o segundo na semana. A dona Keiko passa todo dia por aqui de manhã, e às vezes encosta alguém que quer ajudar. Só que ela ficou assim desde aquela vez que um moleque levou as compras dela até o apartamento, entrou com ela e roubou uma pá de coisa, além de dar uns socos antes de fugir. Maldade...

O máximo que pude pensar, nesta hora, além de coitada da Dona Keiko, foi que nem sempre o certo é certo. Um aprendizado desses não deveria precisar acontecer. Mas liguei o carro e sai rápido, pois não havia mais o que fazer ali.

Enquanto dirigia, lembrei de ter lido algo parecido sobre ser humano num livro antigo (O Príncipe, de Maquiavel), mas preferi achar que as Donas Keiko vítimas de assaltantes são apenas tristes exceções.

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