Sempre que posso, procuro arranjar um tempinho para almoçar com minha esposa, normalmente em algum shopping de São Paulo. Como praia de paulistano é shopping mesmo, costuma ser num deles nosso ponto de encontro, quando a agenda permite.
E o shopping é um lugar fascinante para olhar pessoas e seus hábitos, desde que de forma disfarçada e educada. Concordo que os freqüentadores de shopping talvez não representem todo o espectro possível de seres humanos, mas pelo menos há uma boa amostra.
Há um tempo atrás nos encontraramos próximo às 13h00, para comer rapidamente, pois eu tinha algumas reuniões à tarde. No caminho para o estacionamento - normalmente eu vou e ela fica para comprar algo que esteja em falta - já que desta vez estávamos os dois de saída, tive uma chance de confrontar mais uma vez minhas próprias crenças.
Sentada em um sofá daqueles confortáveis de corredor, estava uma mulher de aproximadamente trinta anos. Com uma faixa do tipo que atleta usa na cabeça, camiseta e calça de moleton, ela estava comendo algo guardado num saco plástico bege. Além disso, pela sujeira no chão à sua volta, lembrava uma criança em cadeirão de restaurante, que derruba pedacinhos de pão o tempo inteiro, até que os pais desistem de limpar.
Quando passamos exatamente ao lado dela, percebi o que tinha em mãos: um pacote daquele famoso macarrão salvador das horas de fome inusitada, o Miojo. Ela estava comendo pedaços do miojo como se fossem um salgadinho qualquer, ou seja, crus, e havia derrubado uma boa quantidade no chão.
Eu fiz um sinal para minha esposa de modo que ela olhasse, numa tentativa de verificar seu eu tinha entendido a cena, afinal, quem come miojo cru? Eu, pelo menos, nunca pensei em fazer isso, embora já tenha recorrido ao macarrãozinho muitas e muitas vezes.
Minha esposa olhou e fez cara de espanto, pois além de não gostar particularmente do miojo, ela compartilha de minha visão sobre comê-lo desta forma. Contribuiu para seu espanto o jeito desleixado com que a moça comia, e a bagunça à sua volta, tudo destoando do ambiente do shopping.
Continuamos em frente, em direção ao elevador. Entramos, junto com uma senhora, e não conseguimos conter a conversa e os comentários:
- Nossa, que é isso? Comer miojo cru? Que mulher estranha.
- E você viu a sujeira? Deve ser louquinha de pedra.
- Eca...
Depois do meu eca, a senhora ao nosso lado não se conteve, e soltou:
- Nossa, que engraçado. Meus netos adoram comer miojo cru quando vão na minha casa. Aliás, eles fizeram questão de comer isso ontem.
Os próximos sessenta segundos foram uma aula sobre como saborear o tal macarrão sem cozinhá-lo, dada por uma desconhecida, que por um incrível acaso entrou no elevador conosco depois de eu ter presenciado pela primeira vez na vida alguém comer miojo cru.
Saímos do elevador, cada um pegou seu carro, e eu não pude deixar de pensar a respeito. Simplesmente porque as pessoas são diferentes, elas não são necessariamente piores, ou loucas. Talvez comer miojo cru seja um prazer insuperável para aquela moça do shopping, e para os netinhos da Dona não sei quem. O fato de eu não gostar de fazer isso, de nunca ter feito e de não compartilhar deste hábito não deveria me fazer concluir tão rápido algo sobre os outros. Em tempos de Susan Boyle, aquela cantora fenômeno que apareceu no programa Britain's got Talent, e cuja aparência induziu todos ao erro sobre seu talento, talvez eu devesse tomar mais cuidado com conclusões prematuras. Isso vale para tudo na vida.