"O que se faz agora com as crianças
é o que elas farão depois com a sociedade."
(Karl Mannheim)
O bullying sempre existiu. Anos atrás as vítimas eram
chamadas de CDFs, nerds ou puxa-sacos. Eram jovens que se sentavam nas
primeiras fileiras de carteiras na sala de aula, prestavam atenção no professor
e na matéria lecionada, inquiriam e respondiam perguntas, faziam o dever de
casa e, consequentemente, tiravam boas notas. O contraponto era a "turma do
fundão", formada por rebeldes e descolados.
Os atos de bullying eram bem conhecidos. Desde o
"corredor polonês", onde vários estudantes se enfileiravam para escorraçar o
alvo com alguns petelecos, tapas e breves pontapés, a chamada "geral", até o
famigerado "te pego lá fora". A opressão era mais física do que psicológica,
pois o constrangido tinha em sua defesa o fato de ser, normalmente, melhor
aluno que seus agressores.
Claro que também tínhamos o assédio ao gordo, ao feio
e ao varapau. Mas a questão é que estas ações eram contidas em si mesmas. As
escolas mantinham "bedéis" para colocar ordem na casa e coibir atos de
violência, sem falar que ir "parar na diretoria" era temido pela maioria dos
alunos.
Contudo, se o bullying ocorresse, ao chegar em casa a
vítima ainda iria ter com seus pais. Alguns poderiam dizer: "Não reaja, pois
não é de sua natureza", no melhor estilo "ofereça a outra face". Já outros
argumentariam: "Se apanhar de novo lá fora e não reagir, vai levar outra surra
quando chegar em casa".
Mas isso tudo são histórias de 30 ou mais anos atrás,
tempos em que a educação era partilhada pela igreja, a família e a escola. A
igreja católica se viu alvejada, no Brasil, pelo avanço dos evangélicos e
outras religiões, de modo que passou a se preocupar mais com seu negócio do que
com seus clientes. A família abandonou o modelo patriarcal, migrando para o
nuclear. Agora a mulher trabalha fora, acumulando a chamada dupla-jornada, ou
seja, cuidar de seu emprego e dos afazeres domésticos, sobrando menos tempo
para dar atenção aos filhos. Esta nova rotina profissional levou à desagregação
familiar. Assim, a educação foi entregue à tutela quase exclusiva da escola
que, por sua vez, também se tornou um grande negócio.
Neste quadro, coloque como tempero os conflitos de
valores, a influência da mídia e os novos paradigmas sociais. Agora temos
alunos que não respeitam professores, colegas e até os pais, pois têm grande
dificuldade de lidar com o conceito de hierarquia. O apelo ao consumo
transformou pátios em passarelas, por onde desfilam roupas e celulares. Os
péssimos hábitos alimentares promoveram o crescimento da obesidade contrastando
com a ditadura da beleza. E a cereja do bolo: a comunicação pelas redes sociais
que levam as vítimas à exposição instantânea e em larga escala.
A solução para amenizar o
bullying não passa por mais regras, coerção e punição. Passa pelo resgate dos
valores e a conscientização sobre o que é certo e o que é errado, tarefa esta
da igreja, da família, da escola e também da sociedade.