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8 Minutos De Atraso Pelo Acaso!
http://www.abtd.com.br - Data da Publicação: 12/01/2010

Por CAROLINA IGNARRA

Todo fim de ano é igual, faço meus planos para o ano que está para chegar: família, trabalho, saúde, amigos... e sempre desejo ser mais tolerante com os imprevistos e acasos na vida de uma cadeirante.

Ontem, 07 de janeiro de 2010, foi oficialmente meu primeiro dia de trabalho do ano, tive duas reuniões, um almoço e resoluções diretas com os clientes, já me deparei com duas situações que se não fossem tão trágicas, seriam engraçadas, ou melhor: se não fossem engraçadas, seriam trágicas...

Cheguei 11h50 a um conhecido conjunto de edifícios empresariais onde tinha um almoço marcado às 12h e uma reunião às 14h. Estava "em cima da hora" e corri para um sanitário no piso térreo do conjunto que eu já conhecia e sabia que era adaptado.

Para chegar ao sanitário foi um caos, duas portas pesadas e difíceis de transpor, tive que encarar. Minha bexiga super cheia e eu super preocupada com um possível vazamento e o transtorno, pois eu ainda tinha dois compromissos importantes.

Enfim cheguei ao sanitário, um corredor e 3 cabines internas, sendo que uma delas é acessível. Para minha surpresa e o 1º acaso do ano (chamo de acaso, a falta de acesso, de preparo, de respeito, apenas para ser mais sutil). O corredor que dava acesso às três cabines estava interditado por um armário de funcionários. Isso mesmo, a passagem que deve ter aproximadamente 1 metro de largura, está agora com uns 50cm, no máximo. E minha bexiga super cheia!

Depois da tragédia a parte engraçada! Fiquei uns 20 segundos em choque, paralisada, pensando que não podia me atrasar para o almoço e já era 11h55... olhei para minha esquerda e vi o outro sanitário aberto, logo percebi que era o masculino pelos mictórios, que na verdade me salvaram naquela hora.

Não, eu não usei os mictórios, mas por causa deles, mesmo com o armário dos funcionários que também tinha ali, o banheiro do homens era mais largo e a passagem para as cabines possível para mim, não tive dúvida, bati na porta, perguntei: "tem alguém aí?", ninguém respondeu, entrei rapidinho e me tranquei na cabine.

Enquanto esvaziava minha bexiga, ouvi um barulho, era um homem, quer dizer, acho que era um homem, abriu o armário, pegou algo lá, fez xixi... ouvi tudo... a porta fechou.

Pensei: "estou sozinha novamente", terminei minha parte, já estava vestida e ouvi barulho de novo... esperei! Não ouvia mais nada quando abri uma frestinha da porta da cabine, vi pelo espelho um homem lá dentro, esperei. Ouvi o barulho da porta, estava sozinha... saí, correndo, lavei a mão cheia de medo de ser flagrada... saí e ninguém me viu! Pelo menos eu acho!

12h08 estava em frente ao restaurante. 8 minutos de atraso pelo acaso!

No almoço conversamos sobre o acaso e surgiu a idéia de escrevê-lo. Mal sabia eu que meu texto ficaria mais completo, outro acaso ainda estava por vir.

Às 14h eu estava na recepção da empresa que tinha marcado a reunião. O rapaz que me atendeu disse que a reunião seria em uma sala no andar abaixo, 13º e uma pessoa me aguardava por lá. Ele perguntou: "precisa de ajuda?" Respondi: "É só descer, não se preocupe!"

Chamei o elevador que demorou um pouquinho, chegou, entrei e aí o 2º acaso do ano... o botão do 13º era muito, muito, muito alto, não consegui acionar. O elevador desceu... torci: "vai parar no 13º, vai parar no 13º!" Passou reto!

"O que faço agora? Bem que a sala de reunião podia ser no 4º ou 5º andar" Parou no 10º entrou uma senhora, pedi ajuda: "moça aperta o 13º pra mim, por favor?". A moça me olhou com aquela cara de dó, meio que entendendo o que estava acontecendo e acionou o 13º para mim. "Obrigada!"

Descemos, com algumas paradas nos andares, fomos até o -2  e eu pensando em uma piada, daquelas bem humor negro sobre anões (o anão mora no 10º andar, mas todos os dias desce no 6º e sobe o restante pelas escadas. Ele só sobe direto em dias chuvosos, por que? Porque aciona o 10º com a ajuda do seu guarda chuva). Pensei: "bem que podia estar chovendo!"

Agora fora da piada, na vida real, conheço um anão que trabalha em uma empresa que atendo, ele anda com uma antena no bolso (daquelas antenas que professor usava para apontar a lousa, sabe?), ele sobe e desce pelos elevadores acionando os andares com a antena. Ganhou do chefe dele!

Cheguei no 13º, 14h08 minutos. 8 minutos de atraso pelo acaso!

Conviver na sociedade sem acesso é isso, ser tolerante e até achar graça quando a minha necessidade é esquecida.

Carolina Ignarra é referência em inclusão de profissionais com deficiência nas organizações Seu trabalho tem foco na mudança cultural para a aceitação das diferenças das pessoas com deficiência no trabalho e na sociedade
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