Maio de 2012, Gramado. Após minha participação no ESARH - Encontro
Sul Americano de Recursos Humanos, já relaxando na sauna do hotel, iniciava-se
na cidade o XIX Congresso Brasileiro de Apicultura. E numa conversa de sauna
com um apicultor que compartilhava aquele espaço comigo e meu sócio, tive a
informação que as abelhas são uma das comunidades mais organizadas na natureza.
Mas o que me deixou mesmo impressionado foi saber que o produto mais nobre da
colmeia - a geleia real - é produzido por uma glândula localizada na cabeça das
abelhas operárias, sendo o alimento da abelha rainha por toda sua vida. Soube
também que as abelhas operárias apesar de serem fêmeas, são estéreis, sendo uma
prerrogativa e única função da rainha a reprodução da colmeia.
Esse diálogo me fez lembrar duas coisas notáveis. Primeiro o
trabalho de Janine Benyus, consultora em inovação que se inspira no
Biomimetismo (área da ciência que tem por objetivo o estudo das estruturas
biológicas e das suas funções, procurando aprender com a natureza suas
estratégias e soluções) e segundo, a ótima palestra de Mário Sergio Cortella
que, no mesmo ESARH, explicou o mito grego de Maia, deusa da fecundidade, da
energia vital e seu nome significa literalmente "pequena mãe". A palavra Maia
dá origem ao termo maiêutica (de Sócrates) que sabemos ser a base da metodologia
de coaching. Tanto o coach quanto o líder tem a função de
fecundar, germinar, promover, polinizar, fertilizar. Aquela conversa me gerou
uma instigante curiosidade e entusiasmo pelas abelhas e quase que
automaticamente comecei a fazer uma analogia com o ambiente corporativo e a
gestão do conhecimento. Em minha posterior pesquisa (consegui um exemplar de um
livro raro, que "devorei" em apenas um dia), descobri que uma colmeia, composta
por cerca de 90 mil indivíduos, funciona como se fosse um único organismo em
que cada abelha atua como uma célula num corpo, servindo o todo num
impressionante senso de serviço. E as analogias não param por ai...
...Sobre a
função do conhecimento: Na colmeia,
as abelhas interagem por meio de uma complexa comunicação e a ação de cada
abelha serve a um propósito comum que é buscar, criar, disseminar, utilizar
e transformar matéria-prima (néctar,
pólen, própolis, água) em produtos úteis para comunidade, garantindo a
sua manutenção e sobrevivência. Na empresa, os talentos buscam, criam,
disseminam, utilizam e transformam informações em conhecimentos uteis para
a empresa para garantir sua sustentabilidade e capacidade de inovação. Isso só
é possível se os talentos tiverem um forte senso de identidade com a
organização a que servem, com orgulho de pertencer à organização;
...Sobre o
Conhecimento em si: Na colmeia, as abelhas jovens
produzem a geleia real por uma glândula localizada em sua cabeça, alimento nobre, que nutre a rainha por
todo seu ciclo de vida. Na empresa, os talentos disponibilizam seus
conhecimentos tácitos (que estão em suas cabeças) para nutrir o grupo, o líder e a organização em seu intento
estratégico;
...Sobre
a liderança: A única função da rainha é produzir filhos (germinar,
fecundar, fertilizar). Quando uma rainha não cumpre seu papel ela é
substituída pelas operárias (é a comunidade quem comanda e não a rainha).
Nas empresas, a função do líder é nutrir e fertilizar os talentos e os
acionistas. O líder que não desenvolve, não germina não cumpre sua função
essencial, perde legitimidade e credibilidade, sendo substituído mais cedo
ou mais tarde. A liderança que fomenta e estimula o processo de aprendizagem
organizacional é um líder polinizador da criatividade e da inovação;
...Sobre a
utilização do conhecimento: Cada
produto colhido ou produzido tem uma função para a colmeia. Nada é desperdiçado. As abelhas armazenam
seus produtos em formas hexagonais para otimizar ao máximo o espaço na colmeia.
Cada conhecimento tem uma relevância e função estratégica para a organização,
devendo ser armazenado apropriadamente (sistemas de informação, banco de dados,
processos internos, manuais, etc.) e com livre acesso pelos talentos, para ser
usado quando oportuno;
...Sobre o
contexto capacitante: Há uma interação muito
estreita entre a colmeia e o ambiente. Para que a vida da colmeia seja
garantida é preciso um contexto que capacite a vida, assim como uma atuação sábia do apicultor
para perceber e respeitar os ritmos, as necessidades, o clima e os ciclos das
colmeia e assim conseguir alta produtividade. A ganância do apicultor pode
destruir a colmeia. A empresa deve garantir um contexto capacitante,
(BA) para que o conhecimento possa
fluir. Um bom clima organizacional,
onde as pessoas se sintam seguras, encorajadas, reconhecidas e amparadas e
donas do processo. Isso é viabilizado por um estilo de gestão que
possibilita o desenvolvimento do potencial criativo de todos os talentos, num
ambiente de confiança mútua, autonomia e políticas coerentes;
...Sobre estratégia: O intento de cada abelha, assim como o da colmeia é prosperar a vida. O foco central não
está num ganho imediato, ou individual, utilizando os recursos naturais, sem
destruir a natureza, pois instintivamente sabe que "está nela", que precisa dela
para continuar produzindo e vivendo. Sustentabilidade faz parte de sua
estratégia, pois retira da flor só o que precisa e quanto mais trabalha, mais
contribui para a polinização, garantindo recursos no futuro. Na empresa, o foco central deve estar na estratégia e no
valor de seu capital intelectual e não na perspectiva de um lucro imediato.
A sustentabilidade deve ser incorporada
nas estratégias empresariais, não como retórica, mas como um compromisso genuíno com a vida, com as
gerações futuras e com a felicidade no presente. O conhecimento, quanto mais
circular, mas se multiplica.
Concordando ou não com minhas reflexões, uma coisa é certa. A
natureza é uma impressionante professora de 5 bilhões de anos, com modelos
testados, aprovados e melhorados que nos convida sem imposições a ajustar as
lentes de nossa percepção para um olhar mais atento das complexidades a nossa
volta. E uma característica notável da Sociedade do Conhecimento é que para
aprender, não precisamos ser ensinados. Basta apenas fazer como as abelhas,
colher e digerir o conhecimento, dando função a ele.
Carlos Legal é graduado em administrador de empresas com
pós-graduação em gestão estratégica do conhecimento e da inovação. Empresário,
consultor organizacional e palestrante. Professor convidado de cursos de
pós-graduação. Sócio-Fundador da Legalas Educação e Qualidade de Vida
Carlos Legal | Skype: carloslegal | Facebook: carlos legalas | Twitter: @carloslegalas