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Você Está Pronto Para o Trabalho Flexível?
http://www.abtd.com.br - Data da Publicação: 01/09/2010

Por DANIEL CASTELLO

O trabalho na forma como o conhecemos hoje, onde uma pessoa sai de sua casa, se fecha dentro de uma empresa com uma hora definida para entrar e uma hora definida para sair, foi criado na revolução industrial, iniciada na Inglaterra no fim do século XVIII. Naquele momento uma conjunção de fatores demográficos e sociais, catalisados por uma inovação tecnológica incrível - a maquina a vapor - permitiu o surgimento da primeira linha de produção.
 
E de lá pra cá, muito pouco mudou.

É claro que as escalas se humanizaram, as condições de vida melhoraram, que o mundo evoluiu... Mas nós continuamos acordando cedo de manhã, nos movendo como gado para ambientes meio insalubres, cumprindo nossa jornada diligentemente e voltando para casa cansados no fim do dia... E nós achamos normal.

Da mesma forma que os macacos da experiência behaviorista que nem tentavam mais pegar a banana, embora não soubessem por que, nós achamos que esta é a forma natural de organizar o trabalho. Que é ruim, mas que é natural. Pavlov dorme feliz...

A verdade é que esta lógica ainda é adequada e necessária para empreendimentos com processos manufatureiros onde se organiza o trabalho como um fluxo otimizado de transformação de materiais físicos em outros materiais mais valiosos. É verdade também que esta lógica é adequada para diversos outros processos de trabalho como varejo, distribuição e atendimento, onde por um motivo legítimo uma pessoa precisa estar em um lugar no espaço em um exato momento no tempo.

Mas esta lógica não é a regra, é a exceção. Ela só é válida nestes casos!

Nos outros casos existem formas novas, mais flexíveis e humanas, de organizar o trabalho. Formas mais adequadas às características demográficas e sociais do nosso tempo, catalizadas pelas inovações tecnológicas nas áreas de comunicação e processamento eletrônico da informação.

Chegou a hora do Trabalho Flexível.
    Trabalho Flexível é um termo abrangente que descreve todas as práticas que estão além dos modelos tradicionais de trabalho.
    Geralmente há elementos de flexibilidade tanto para o empregado como para o empregador.
    As práticas de trabalho flexível surgiram principalmente dos avanços no desenvolvimento tecnológico, em particular nas telecomunicações e nas aplicações informatizadas.
    Estas tecnologias têm libertado empresas e empregados do trabalho em tempo e lugar físico limitado.
    Estratégias de gestão inovadoras permitem obter uma produtividade superior e condições de trabalho melhoradas neste tipo de ambiente , onde o absenteísmo diminui, os custos fixos  caem e as regulamentações ambientais são cumpridas com mais facilidade
    Tipicamente, arranjos de trabalho flexível harmonizarão (1) Localização, (2) Tempo, (3) Contratos, (4) Processos de trabalho e tarefas, (5) Gestão e relações de trabalho e (6) Organização.

Basicamente Trabalho Flexível é a liberdade institucionalizada de escolher a forma mais produtiva de se colocar no tempo-espaço para realizar o seu trabalho. Pode significar trabalhar em casa, na forma de Home-Office. Pode significar ajustar seu horário de trabalho dinamicamente de forma a conciliá-lo organicamente com as outras obrigações da sua vida. Pode também significar trabalhar confortavelmente de 9h00 às 18h00 de segunda à sexta no escritório, se você realmente gosta disto...

As formas básicas de Trabalho Flexível são:
    Teletrabalho (Telework). Também conhecido como trabalho em Home Office (escritório em casa), Home Based (trabalho baseado em casa), Telecommuting... Nesta modalidade você monta um escritório na sua casa que serve como seu local preferencial de trabalho. Tem algumas variações:
a.    Você trabalha o tempo inteiro em casa;
b.    Você trabalha alguns dias em casa e outros dias vai à empresa;
c.    Você trabalha na rua (tipicamente em funções de vendas, cobrança, atendimento ou serviços técnicos) e volta para a sua casa no fim da jornada para fazer o fechamento administrativo do seu dia.
    Tempo Flexível (Flex Time). Tem muitas experiências já realizadas, a maior parte bem tímida, de flexibilizar com limites os horários de entrada e saída. Os instrumentos normais usados para isto são o Ponto Flexível e o Banco de Horas. No Brasil ainda é comum definir uma variação máxima como por exemplo, "você pode entrar entre 8h00 e 10h00 e sair entre 17h00 e 19h00, após cumprir sua jornada diária". No mundo existem variações bastante mais ousadas:
a.    Horário livre com controle diário;
b.    Semana comprimida - por exemplo, rale de segunda à quinta e tire sexta-feira para você...
c.    Horário anualizado - em algumas indústrias com sazonalidade forte nos EUA, existem práticas radicalmente diferentes para os meses de pico e os meses de vale, com redução de dias trabalhados, meio expediente... E depois, em compensação, jornadas mais longas, seis dias por semana de trabalho... O varejo no Brasil já pratica isto de forma "quase formal".
    Tempo Parcial (Part Time). Quando pensamos em Tempo Parcial, normalmente pensamos em trabalho temporário. Embora esta seja a forma mais comum, arranjos de tempo parcial podem ser duradouros. Uma grande consultoria no Brasil acabou de negociar (via acordo coletivo) a possibilidade das pessoas reduzirem voluntariamente seu tempo e salário para poderem se dedicar a atividades como Mestrados, filhos pequenos, doença na família, pré-aposentadoria...
    Compartilhamento de Trabalho (Work Sharing). Work Sharing é útil quando a economia muda rapidamente... Para melhor ou para pior!
a.     Quando o nível de atividade cai muito, em vez de demitir é possível implantar um programa de Compartilhamento de Trabalho, onde, por exemplo, 10 façam o trabalho de 8, com redução de carga horária e remuneração, usando um sistema de rotação de turnos.
b.    Quando ela começa a subir, você pode montar vários pequenos sub-turnos com turmas menores de modo a ir balanceando a carga de trabalho à medida que a demanda vai subindo.  
    Espaços Virtuais (Hotelling). Este já é bem comum no Brasil. Em vez de cada pessoa ter sua estação de trabalho, você tem bancadas, salas de trabalho e salas de reunião que não são de ninguém mas que podem ser reservadas de acordo com a necessidade. Isto é muito útil em empresas de serviço, onde as pessoas trabalham grande parte do tempo em projetos, ou em conjunto com um programa de Home Office.
    Licenças (Leaves) e Sabáticos (Sabbaticals). Aqui já estamos evoluindo, mas muito pouco... A regra ainda é demitir o funcionário que quer um tempo para si, seja qual for o motivo. Ainda é visto como um misto de irresponsabilidade e falta de compromisso com a empresa, como se alguma pessoa devesse ter mais compromisso com a empresa do que com ela mesma!
Ao longo do tempo, uma ou mais ferramentas podem ser úteis, e é assim mesmo que deve ser. A função delas é permitir harmonizar as demandas crescentes do mundo profissional com as demandas também crescentes de um mundo em rápida e intensa mudança. As principais mudanças no contexto que impactam este tema são:
    Sociedade do Conhecimento
    As mulheres no mundo do trabalho
    Geração Y e Millenials
    Terceira idade produtiva
    Urbanização, trânsito e segurança
    Avanço da medicina e inclusão social
    Mobilidade e conectividade
    Caos climático

Dentro deste contexto os benefícios do Trabalho Flexível são vários:
    Reduz custos de instalação.
    Gera aumento de produtividade.
    Melhora a qualidade de vida.
    Flexibiliza relações trabalhistas e reduz riscos.
    Reduz impacto ambiental por transporte.
    É uma ferramenta de atração e retenção de talentos.
    É uma forma barata de contingência (greves, catástrofes).
    É uma forma de acolher pessoas com deficiências.

E os desafios são:
    Ambigüidade jurídica
    Preconceito (principalmente pelos Baby Boomers)
    Segurança da Informação
    Medição objetiva de TCO.
    Medição objetiva de Produtividade.
    Requer uma cultura de gestão por resultados.
    Requer nível alto de maturidade de todas as partes.
    Pode gerar isolamento.
    Pode gerar desmotivação.

O maior desafio de todos é o humano. Depois de mais de 200 anos, não é fácil ver como normal sair de novo de dentro da organização... Existem muitas coisas que podem dar errado, e o medo da situação degenerar não deve ser subestimado. Algumas pessoas não conseguem, não se adaptam. Outras conseguem e ficam imensamente felizes, se sentem mais livres. O que determina isto? O que faz uma pessoa ter sucesso neste modelo e outra não?

Os principais fatores de sucesso no Trabalho Flexível tem a ver com nível de maturidade e equilíbrio interior. E é fácil de entender - você terá mais liberdade e, logo, mais responsabilidade. E isto vai requere mais maturidade de você. E você terá menos referência externa, menos chefe, menos gente a sua volta, menos sensação de se mover com a multidão. Logo precisará ter suas referências internas mais sólidas, o que só é possível com equilíbrio interior...

A primeira grande mudança é que você não será mais gerido por esforço (ninguém verá você trabalhando o tempo todo e checando o que você está fazendo). Você será gerido por resultados. Sua vida vai virar uma seqüencia mais ou menos caótica de micro-contratações e micro-mandatos. E você terá que gerir seu próprio esforço para entregar o contratado na forma e no prazo definido. A Gestão do Tempo é provavelmente a competência fundamental desta forma de trabalho.
    Você saber gerir seu próprio tempo?
    Você tem o costume de trabalhar com agenda e lista de afazeres?
    Você costuma planejar seu dia antes de começar a trabalhar?
    Você costuma planejar sua semana antes de começar a trabalhar?
    Você tem auto-disciplina?

A segunda grande mudança, que anda junto com a primeira, é que você passará a ser o dono do seu tempo. E que as demanda virão de todos os lados - do seu chefe, dos seus colegas de equipe, de sua família... E você terá que ser capaz de gerir e negociar as expectativas com todos eles. Logo Negociação é uma competência bastante importante também...
    Você sabe dizer não sem culpa?
    Você tem clareza sobre suas prioridades?
    Você consegue entender rápido quanto uma nova demanda vai tomar de tempo de você?
    Você tem firmeza suficiente para frustrar todas as pessoas a sua volta, dividindo o sacrifício com sabedoria?

A terceira grande mudança tem a ver com entregar resultados. Parece igual às de cima, mas não é. O Cesar Souza tem um nome genial para esta competência - Acabativa. Você tem acabativa?
    A qualidade do seu trabalho é constante? Ou ela sofre quando você tem pressão de tempo?
    Você costuma estourar prazos ou entregar coisas pela metade?
    Você percebe rápido o que você não sabe ou onde você precisa de ajuda e você pede ajuda logo?
    Você cumpre o que você promete? Sempre?

Muitas pessoas precisam da vida social que o trabalho cria. Perceba que eu usei o termo precisam. Para estas pessoas, onde a vida social e a vida no trabalho se confundem umbilicalmente, é muito difícil se afastar do ambiente físico do trabalho, mesmo que por pouco tempo. Ter a capacidade de estabelecer de forma satisfatória suas relações sociais - a Sociabilidade - é fator de felicidade neste sistema.
    Você tem bons amigos fora do trabalho que você vê frequentemente?
    Quando você troca de trabalho, você troca de turma?
    Você tem amigos de verdade no trabalho?
    Você tem medo de perder o contato com as pessoas que você trabalha diariamente?

O último grande desafio tem a ver com o Senso de Pertencimento à organização. A gente deveria se sentir parte de algo pela nossa participação, pela nossa contribuição, ou pela nossa afeição, mas muitas pessoas se sentem parte de algo mais baseado em um senso de freqüência... Meio como, "se eu venho aqui todos os dias, eu pertenço a este lugar". Formalmente não deveria existir nenhuma diferença no senso de pertencimento, seja qual for a forma do seu trabalho... Mas quando nossa relação é flutuante no espaço-tempo o melhor senso de pertencimento virá da auto-estima elevada pelo reconhecimento da nossa contribuição. Algo como "eu mereço pertencer a este lugar". Pessoas que tem auto-estima muito instável, com perfil bipolar ou cronicamente deprimidas podem ter uma vivência de muito isolamento, e logo, de baixo pertencimento, neste ambiente. Como você é?
    Você sente que sua contribuição é valiosa para a organização?
    Você sente que sua opinião conta?
    Você se sente reconhecido pela empresa, em especial na figura de seu supervisor?
    Você se sente reconhecido, admirado, por seus colegas de trabalho?
    Você se magoa, se encolhe, se isola, com facilidade?
    Você tem histórico médico de depressão?

Existem uma série de checagens formais, além destas, que precisam ser feitas. É necessário checar se sua casa tem espaço para você trabalhar sem interrupções, se seus processos de trabalho podem ser executados fora do ambiente da empresa, se a tecnologia adequada está disponível, se isto não vai atrapalhar sua vida pessoal... Mas normalmente estes fatores são gerenciáveis de forma objetiva. Não é tão difícil...

O difícil mesmo é fugir do "normal" sem se sentir "diferente". Difícil é experimentar algo novo, arriscando sua estabilidade profissional, que está ligada diretamente ao seu sustento. Se fosse para eleger apenas uma competência, acho que nem competência ela seria, seria uma virtude - a Coragem!

Vejo vocês no CBTD.

Daniel

Especialista em Gestão da Execução com concentração em Gestão de Pessoas
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