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Gandhi e seu Legado Para Liderança
http://www.abtd.com.br - Data da Publicação: 27/10/2013

Por CARLOS LEGAL

No último dia 02 de outubro comemorou-se o Dia Internacional da Não Violência, uma homenagem a data de nascimento de Mohandas Gandhi. Simples por opção, Gandhi direcionou-se na vida por princípios morais que orientaram seu modelo igualmente simples de liderança e com sua peculiar simplicidade e perspicácia, tornou-se um dos maiores lideres e agentes de mudanças de sua época, deixando um legado que inspirou outros lideres como Martin Luther King e Nelson Mandela, além da metodologia de Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg. E, certamente, conhecer a história de Gandhi é fundamental para aqueles que estão em posição de liderança ou almejam ser. O legado de Gandhi como líder e pacifista, nos inspira a refletir sobre o mais profundo potencial humano para resolver problemas complexos, sendo possível vislumbrar a integração de sucesso nos negócios com integridade pessoal e ética, decisões econômicas e políticas com princípios e valores morais, numa ciência que sirva realmente aos interesses e necessidades humanas, em relações de trabalho pautadas pelo cuidado, amor e respeito. Essas seriam características de um padrão de liderança mais elevado, tão necessário para construção de negócios mais sustentáveis. Sobre Gandhi, Albert Einstein disse que "as próximas gerações dificilmente acreditarão que alguém como ele de fato andou, em carne e osso, por este planeta". Neste artigo, humildemente, gostaria de explorar alguns princípios Gandhianos e contextualiza-los a liderança organizacional atual.

Liderar por princípios: a base do modelo de liderança Gandhiano está nos princípios éticos que adotou firmemente em sua vida. O primeiro princípio é a não violência, que sugere guiar-se cuidadosamente, de modo a evitar que qualquer conduta ou comportamento venha a gerar dor, sofrimento ou humilhação, físico ou psicológico a alguém. É o fundamento de toda a moralidade baseada na espiritualidade, presente nas principais tradições de conhecimento que sugere "faça ao próximo o que gostaria que lhe fizessem". No contexto atual, sugere que a conduta do líder deve ser atenta e reflexiva visando evitar que qualquer atitude ou conduta gere prejuízo às pessoas. É obvio que é praticamente impossível não causar sofrimentos, principalmente quando se está numa posição que exige tomada de decisões. Mas se o líder desenvolve aderência a esse principio e assume um compromisso legitimo com uma conduta não violenta, encontrará formas de eliminar ou minimizar prejuízos aos outros, por meio de uma conduta e comunicação cuidadosa com as pessoas, decidindo com base na reflexão e na justiça e diminuindo comportamentos de agressividade e indelicadeza. Comunicação franca e cooperativa, diálogos abertos, olho no olho e a assertividade ajudam a superar o autoritarismo e o assédio moral, fortalecendo as relações entre líderes e liderados.

O segundo princípio é a verdade. Naturalmente que esse princípio não se limita a abstenção da mentira, mas a busca de coerência entre os pensamentos, palavras e atos. O líder que se orienta por esse princípio é autêntico, franco, transparente, não ilude os outros criando falsas expectativas com aquilo que não poderá cumprir e tem um padrão único de conduta em sua vida pública e privada. Gandhi seguia e aprovava um padrão único de conduta e a relevância desse princípio se dá ao fato de que as pessoas normalmente perdem o respeito por líderes incoerentes, que possuem conduta distinta entre sua vida publica e privada. Isso não sugere uma conduta perfeita dos lideres, mas a história confirma que muitos líderes políticos e empresariais do passado, pegos em mentiras e escândalos tiveram sua reputação destruída, sendo forçados a se retratar e até renunciar a seus cargos. Líderes que não despertam respeito reduzem a legitimidade de sua liderança e comprometem sua credibilidade.

Liderar por serviço: Gandhi é, sem dúvidas, um símbolo de liderança servidora. Mesmo sem ocupar qualquer posição oficial no governo, conseguia mobilizar milhões de pessoas. O modelo mental de muitos líderes ainda associa liderança à conquista de poder e status e enquanto o poder e status dominar o modelo mental sobre liderança, dificilmente conseguirão progredir para um padrão de liderança mais elevado. O serviço deve estar no centro da liderança e embora o poder sempre esteja associado à liderança, ele tem apenas um uso legitimo - o serviço. Líderes motivados exclusivamente por interesses egoístas também perdem legitimidade. Um espírito de serviço é pautado por um forte senso de dever e responsabilidade com os outros, com a organização e consigo mesmo e Gandhi acreditava que os deveres sempre vinham antes dos direitos. Compreender as necessidades das pessoas (inclusive as ocultas) é a base para uma liderança servidora e para isso, o líder deve envolver-se pessoalmente com elas, dedicar tempo para ouvi-las, sentir as pessoas, observá-las e compartilhar experiências. E se o compromisso pessoal em servir as pessoas não for visível, elas dificilmente compartilharão informações sobre suas necessidades mais profundas. O líder que não serve, não serve para ser líder.

Liderar a si mesmo: Gandhi foi um homem que reconheceu suas fraquezas. Em sua autobiografia afirmou ter sido tímido, impulsivo e luxurioso na juventude, sentindo-se muitas vezes, envergonhado por pensamentos e sentimentos que sentia em momentos inoportunos. A autoconsciência sobre suas vulnerabilidades criou em Gandhi uma firme disposição para se refinar como pessoa, melhorando seu autocontrole e seu comportamento geral, dia após dia. Penso que reconhecer sua humanidade básica é uma virtude para o líder, pois todos nós somos ou nos tornamos inábeis diante de certos aspectos práticos da vida. "Estou convencido das minhas próprias limitações - e esta convicção é minha força" afirmou Gandhi. Treinar a própria consciência é um caminho consistente para saber investigar e melhorar a si mesmo com certa autonomia. Uma mente habilidosa, capaz de um autodiálogo positivo possibilita melhor qualidade reflexiva e melhores decisões. A maioria das pessoas reflete sobre as próprias ações após reconhecer que cometeu um erro ou uma injustiça. Quando o fazem, certamente é um bom primeiro passo, mas ainda é uma ação reativa. Cultivar uma "concentração interna" (ou meditação) ajuda a criar um espaço de atenção que quebra o automatismo, gerando capacidade reflexiva para escolher a melhor ação para determinado contexto. Isso é maestria pessoal. Reconhecer e ter consciência das próprias fraquezas realmente se revela como força de caráter, na medida em que gera compromisso para o aprendizado de novas competências para minimizar comportamentos improdutivos. Em outra de suas frases, Gandhi afirmou que "aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros".

Liderar pelo exemplo: há uma famosa história de uma mãe aflita que trouxera seu filho até Gandhi dizendo: "Por favor Mahatma, peça ao meu filho que pare de comer açúcar. Eu já expliquei a ele todo o mal que lhe faz, mas ele não me escuta. Mas tenho certeza de que um pedido seu ele atenderá". Gandhi olhou para a mulher e pediu que ela voltasse com seu filho após 15 dias. Ela esperou este período e voltou. Então, Gandhi olhou bem nos olhos do menino e disse: "Pare de comer açúcar, porque só lhe faz mal". A mãe então perguntou: "mas Mahatma, porque não fez isso da primeira vez que vim até aqui?". E então Gandhi respondeu: "porque há quinze dias eu também comia açúcar". Cada um de nós, consciente ou não, está dando um exemplo para alguém e cada um de nós é responsável por moldar o futuro como gostaríamos que fosse. Se quisermos fazer uma diferença positiva para as pessoas e para o mundo é necessário adotar uma conduta coerente e não simplesmente cobrar dos outros uma conduta que teríamos dificuldades de praticar. Liderar pelo exemplo não é apenas a melhor forma de liderança, mas também a mais duradoura.

Liderar por propósito: Gandhi certamente teve um propósito, um ideal. Libertar seu país da dominação britânica, inspirar um senso de liberdade, justiça e autoestima no povo, lutar pela desigualdade social são exemplos de propósitos e ideais. Propósito pode ser entendido como um objetivo repleto de significado, que beneficia não só o agente, mas toda sua comunidade. Um líder naturalmente se orienta por uma visão, uma missão e valores (prefiro chamar de propósito) que são compartilhados e criam o elo entre as pessoas. A crença e amor do líder por um propósito, preferencialmente não egoísta, é que vai inspirar os outros a segui-lo. Gandhi amou a justiça e a liberdade e adotou princípios éticos para chegar até ela.

E assim, que seu legado continue a nos inspirar.

Seu propósito é inspirar as pessoas a se tornarem mais lúcidas, inovadoras, reflexivas, atentas, criativas, comprometidas, autônomas, fluidas, competentes, responsáveis e aptas a aprender, com o objetivo de capacitá-las a interagir conscientemente com a crescente complexidade da vida e dos negócios e serem capazes de construir resultados satisfatórios e duradouros.
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