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Meditação na Empresa? Para Quê?
http://www.abtd.com.br - Data da Publicação: 29/10/2013

Por CARLOS LEGAL

A meditação tem sido tema recorrente em publicações voltadas para negócio e gestão. Recentemente, o jornal Valor Econômico publicou a matéria "meditação para aguentar a crise", em que executivos do mercado financeiro, que meditam há anos, relataram benefícios como "adquirir tranquilidade", "ver as coisas de uma perspectiva mais elevada" e "tomar decisões mais sábias". A revista HSM Management, num intervalo de um ano, publicou duas matérias sobre o tema - "O ABC da meditação" na edição 91 de março 2012 e "Aprendendo a silenciar a mente" na edição 97 de abril 2013. Nesta última, teóricos da gestão e altos executivos praticantes assíduos como Peter Senge, Daniel Goleman, Tal Ben-Shahar, Bob Shapiro, Steve Jobs, entre outros, reconheceram os benefícios da prática para suas vidas e naturalmente, para o desempenho profissional. Modismos a parte, não podemos perder de vista que a meditação é milenar, presente em diversas culturas e que beneficia pessoas no mundo todo, há milhares de anos.

Venho estudando, praticando e ensinando meditação há alguns anos e acredito que como método de autodesenvolvimento, certamente, pode trazer inúmeros benefícios para pessoas inseridas no intenso ambiente das organizações. É natural que alguns a vejam como antagônico ao dinâmico ambiente organizacional, mas se entendermos meditação como consequência de uma forte atenção / concentração, que gera um estado alterado e amplo de percepção e é inerente ao potencial da mente humana, podemos compreender que a meditação está mais para um estado do que para uma prática em si. O que praticamos é atenção e concentração.

A capacidade de atenção afeta fortemente nossas vidas e se essa capacidade se torna comprometida por causa de qualquer agitação ou tédio, não conseguiremos fazer quase nada certo. O reconhecimento de que a mente naturalmente oscila entre lentidão e agitação, distração e foco, e de que somos, involuntariamente, tomados por estados de aflições emocionais como ansiedade, hostilidade, depressão, orgulho, raiva, entre outros estados que sabemos ter forte impacto sobre o desempenho das pessoas, torna-se relevante aprender a cultivar a própria mente.

Penso que há um aspecto sobre performance ainda pouco falado - o estado interno da pessoa que está performando. Uma pessoa para ter alto desempenho precisa de boa capacidade de atenção e concentração, mas o que viabiliza essa capacidade nas atividades cotidianas? Antes, precisamos entender que há dois tipos de concentração - a externa e a interna. A concentração externa diz respeito às tarefas do momento, como tomar uma decisão, elaborar um relatório, atender um cliente, conduzir uma reunião, apresentar um projeto, realizar uma venda ou negociação. Por outro lado, a concentração interna diz respeito ao estado de consciência do agente, a sua capacidade reflexiva, a sua presença. Os dois estados são importantes, cada um tem um lugar em nossas vidas, mas é a concentração interna que viabiliza, sustenta e fortalece a externa, tão necessária para ter bom desempenho. As práticas meditativas incentivam o treino da concentração interna, da auto-observação, da desaceleração, da alegria e paz de espírito.

Em meus estudos, encontrei diversas referências sobre a importância de estados internos mais qualitativos em obras de gestão e negócios. Nonaka e Takeushi, da gestão do conhecimento, afirmam que empresas e pessoas bem sucedidas possuem grande capacidade de enfrentar e tirar vantagem dos paradoxos, das ambiguidades e incertezas que caracterizam essa época de complexidade. Uma "mente dialética", segundo eles, possibilita as pessoas abraçarem ativamente os opostos, lidarem com contradições e aceitarem o "ambos-e", livrando-se da tirania do "ou-ou". Otto Scharmer, de Teoria U, afirmou que "a mesma coisa pode promover um resultado, totalmente diferente, dependendo do lugar interior (fonte e qualidade da atenção) a partir do qual sua ação se origina". Ele passou dez anos estudando o pensamento de líderes mais impressionantes, criadores excepcionais e mestres da inovação e concluiu que pareciam operar a partir de um processo interno diferente, um processo que os inseria no campo das futuras possibilidades, isto é, aprendiam de forma generativa (a partir do futuro emergente). De forma sintética, o método de aprendizagem proposto por Scharmer, sugere (1) perceber a realidade como ela é, suspendendo voluntariamente o julgamento; (2) criar um espaço de reflexão (presencing), acessando a sabedoria interior para ter um diagnóstico "limpo" da realidade e permitir novas soluções e (3) realizar, fazer acontecer com rapidez e naturalidade. O presencig é o momento de reflexão ou contemplação para acessar a "sabedoria interna". Daniel Goleman demonstrou que pessoas que cultivaram o hábito da meditação, responderam mais rapidamente a eventos estressores e sofriam muito menos após o evento. O próprio Peter Senge reconheceu que o insight que deu origem a sua obra Quinta Disciplina veio em uma meditação. Todos nós já experimentamos, involuntariamente, total absorção no momento presente ao praticar um esporte, ler um livro, fazer amor, mexer no jardim ou na realização de qualquer atividade prazerosa. Todos esses são exemplos de conexão e presença, que acontecem involuntariamente. A meditação é o ato voluntário de focar a atenção onde e quando se deseja. Entre alguns de seus benefícios, destaco:

Ampliação do livre-arbítrio: significa ampliar sua capacidade de escolha, seu protagonismo diante da vida, sua prontidão, com fortalecimento do foco, vontade, qualidade atencional, capacidade reflexiva e espiritualidade. O que mais nos limita não são as outras pessoas ou as circunstâncias, mas nosso próprio modelo mental arraigado, referências e apegos que nos aprisionam. A meditação ajuda a relativizar seus pressupostos pessoais e ganhar melhor liberdade interna. Humildade e espírito de aprendiz, por si só, é sabedoria prática.

Lucidez: Um sonhador sem senso de realidade torna-se um "viajante", um realista sem sonho torna seu coração duro e insensível. Uma pessoa lúcida consegue harmonizar sonhos com senso de realidade, objetividade com sensibilidade. Lucidez possibilita ver os eventos com mais clareza, enxergar claramente os impactos das nossas ações antes de realizá-las e ter uma mente objetiva sem perder a compaixão.

Equanimidade: é uma "competência" que pode ser entendida como a habilidade de manter-se sereno diante de qualquer evento, seja ele agradável ou desagradável. Significa aprender a não reagir impulsivamente (por apego ou aversão) diante de um acontecimento. A meditação ajuda a criar um "espaço de reflexão" para superar o automatismo e assim, escolher a ação mais eficaz e adequada para determinado contexto. Equanimidade é a base mental para a resiliência, que qualifica a pessoa a superar adversidades e mudanças inesperadas.

Lidar eficazmente com paradoxos: a meditação é um tanto paradoxal e sua prática nos ajuda a lidar com eles. Em meditação, a potência de sua concentração é proporcional ao seu nível de relaxamento, a estabilidade física é viabilizada quando se consegue relaxar no esforço. É uma sabedoria um tanto difícil para modelos mentais controladores compreenderem. Um atleta consegue performar bem melhor quando se liberta da pressão interna de ganhar, a criatividade emerge quando estamos mais soltos e relaxados.

Gestão eficaz do estresse: o estresse é uma realidade na vida das pessoas e um estorvo para as organizações. As pessoas geralmente sofrem com o estresse por dois motivos, quando - (1) não gostam do que fazem, ou seja, estão desconectadas com um propósito na vida, ou (2) não desaceleram, não sabem relaxar. Sintomas como presenteísmo (ausência mental no trabalho), ansiedade, descontrole emocional, entre outros são resolvidos com uma melhor "musculatura mental" e um estado de presença no aqui/agora.

Meditação na empresa? Para quê?

Seu propósito é inspirar as pessoas a se tornarem mais lúcidas, inovadoras, reflexivas, atentas, criativas, comprometidas, autônomas, fluidas, competentes, responsáveis e aptas a aprender, com o objetivo de capacitá-las a interagir conscientemente com a crescente complexidade da vida e dos negócios e serem capazes de construir resultados satisfatórios e duradouros.
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